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Maracanã 70 Anos: as emoções de Bota, Flamengo, Fluminense e Vasco

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Um dos palcos mais conhecidos do futebol brasileiro, principalmente do carioca, o Maracanã completou 70 anos na última terça-feira, 16 de junho. Lá, diversos clássicos marcaram tanto a história do estádio quanto os torcedores. Dentre muitos fatos curiosos e relevantes, o milésimo gol de Pelé é um que jamais será esquecido pelos amantes do esporte. Foi em novembro de 1969 quando o Rei de Futebol, defendendo o Santos, balançou a rede do Vasco em cobrança de pênalti.

Zico, por sua vez, também foi notícia tendo o Maraca como palco. O Galinho não será esquecido pelos cariocas, mas não somente devido à artilharia. Na despedida de Roberto Dinamite, em 1993, o ídolo flamenguista vestiu a camisa do arquirrival Vasco. Na época, ele defendia o Kashima Antlers e veio ao Brasil reforçar o time cruz-maltino no jogo festivo contra o La Coruña. “Vestir a camisa do Vasco é um orgulho para qualquer jogador”, disse Zico para definir a experiência. Outro ídolo rubro-negro que também vestiu a camisa vascaína foi Júnior. Em um evento beneficente, o Capacete defendeu o time de São Januário num amistoso entre os combinados de Flamengo e Vasco contra Corinthians e Palmeiras.

Os rubro-negros Zico e Júnior em cenas inimagináveis para muitos: com a camisa do Vasco (Reprodução)

Além de troca-troca de reforços entre adversários, o Maracanã foi referência nos confrontos entre Botafogo e Santos, que tinham Garrincha e Pelé como protagonistas, respectivamente. Em 1963, em um ranking mundial, os dois times eram considerados os melhores do mundo pela presença dos ídolos no elenco. No entanto, apesar da disputa ter sido acirrada entre os craques, o retrospecto é favorável ao clube paulista, com duas goleadas: venceu a Taça Brasil pela segunda vez (5 a 0) e, também, a semifinal da Libertadores (4 a 0).

O bicampeonato santista, inclusive, rendeu um poema de Guilherme de Almeida: “Gol de Pelé aos 30 minutos do segundo tempo: quatro a zero. Gol de Pelé aos 35 minutos do segundo tempo: cinco a zero. Sobre o grande círculo, Zito ergue a taça que a noite carioca enche de estrelas. No vestiário, descalçando a chuteira, o Rei sorri!”. Apesar de ser conhecido mundialmente, é no futebol do Rio de Janeiro que o Maracanã tem maior destaque. Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco são os quatro protagonistas da história do estádio, responsáveis por lotar e comandar festas a cada partida, título e acontecimento.

Pelé e Garrincha no Maracanã: sorte de quem viu os duelos no tempo máximo (Reprodução Twitter)

O Botafogo fez do Maracanã a sua casa na década de 1960, conquistando dois bicampeonatos estaduais, 1962/62 e 1967/68, e o seu primeiro Campeonato Brasileiro, em 1968 (à época, a competição se chamava Taça Brasil). E quis a história que o fim do jejum de 21 anos fosse festejado no Maior do Mundo: no dia 21 de junho de 1989, o gol de Maurício deu ao Glorioso a vitória sobre o Flamengo e o título invicto do Campeonato Carioca. O Alvinegro faturaria o bi no ano seguinte, desta vez em cima do Vasco, e viveria uma montanha-russa de emoções nos anos 90…

A perda do título brasileiro de 1992, para o Flamengo, foi uma grande decepção. O Alvinegro havia feito melhor campanha e era apontado como favorito, mas o sonho acabou logo na primeira partida da decisão. Como há coisas que só acontecem ao Botafogo, um time formado às pressas e cheio de jogadores revelados no clube, depois que o bicheiro Emil Pinheiro deixou o clube e levou com ele quase todo o elenco, deu ao Glorioso dois títulos em 1993: a da Copa Conmebol, que hoje é conhecida como Mercosul, e o status de primeiro clube carioca a conquistar uma competição internacional no Maracanã.

A conquista do Brasileirão 95 reservou momentos inesquecíveis no Maracanã: além da vitória por 2 a 1 na primeira partida da final contra o Santos, com Túlio Maravilha marcando e comemorando à la Pelé, teve goleada e show de bola diante do Atlético-MG, debaixo de muita chuva, e vitória sobre o Bahia com Túlio e o então presidente Carlos Augusto Montenegro assistindo ao jogo na arquibancada junto com os torcedores. O Botafogo seria novamente campeão carioca em 1997 e levantaria o troféu do Torneio Rio-São Paulo no ano seguinte, mas em 1999 o Maracanã emudeceu.

Diante de 110 mil torcedores – a última vez que o Maracanã recebeu um público de três dígitos, e um feito ao envolver apenas um clube do estado –, o Botafogo perdeu o título da Copa do Brasil no empate sem gols com o Juventude. A competição, aliás, não traz boas lembranças ao Glorioso no Maracanã. Em 2007, venceu o Figueirense por 3 a 1, mas parou na semifinal num polêmico jogo com erros da auxiliar Ana Paula Oliveira, que anulou dois gols alvinegros. Nos últimos 20 anos, o clube ainda faturou mais três estaduais no Maracanã, em 2006, 2010 e 2018, com especial carinho pelo de 2010: depois de três finais seguidas parando no Flamengo, o Botafogo ganhou os dois turnos com direito a título em cima do arquirrival com Jefferson pegando pênalti, cobrado por Adriano, e Loco Abreu fazendo o gol do título com a inesquecível cavadinha.

“O Maraca é nosso! Vai começar a festa!” O trecho é de uma das músicas mais cantadas pela torcida do Flamengo, que se sente como a verdadeira dona do estádio mais icônico do Brasil. Na semana em que o Maracanã completa 70 anos, vale perguntar: quem não ouviu falar do famoso gol de Rondinelli em 1978? Muitos torcedores que nasceram antes da geração de Zico, Andrade, Adílio e companhia dizem que a cabeçada do Deus da Raça aos 42 minutos do segundo tempo foi o “divisor de águas”. O Rubro-Negro acabaria com a sequência de títulos cariocas do arquirrival, e o gol do zagueiro ainda foi eleito como o 20º mais importante da história do estádio.

Mas nem só de alegrias foi marcada a história do Flamengo no estádio, e algumas feridas nunca serão esquecidas. A Copa do Brasil de 2004 era um título que os rubro-negros já davam como certo antes mesmo da partida no Maracanã. O time comandado por Felipe, Athirson e Júlio César era treinado por Abel Braga e franco favorito, ainda mais depois de o primeiro jogo ter terminado 2 a 2 em São Paulo. Com dois gols no segundo tempo do segundo jogo, o time do ABC Paulista protagonizou um dos maiores vexames da história do clube da Gávea. No entanto, a talvez maior tragédia esportiva da história rubro-negra viria na Copa Libertadores.

Depois de uma vitória confortável por 4 a 2 contra o América do México, fora de casa, o Flamengo chegou ao Maracanã em clima de festa, também pela despedida do folclórico Joel Santana, que tinha assinado com a seleção da África do Sul. Só que o centroavante Cabañas não foi avisado das festividades e calou o Maracanã, marcando três gols e protagonizando uma virada histórica na competição. Um ano depois do fracasso, a glória. Adriano Imperador e Petkovic liderariam um desacreditado Flamengo na maior arrancada da história do Brasileirão de pontos corridos, com o clube conquistando seu sexto troféu em cima do Grêmio, na última rodada, de virada e com um gol de cabeça do ídolo Ronaldo Angelim.

E se estamos falando de glórias, nada mais justo do que fechar com o primeiro título internacional que o Flamengo conquistou no Maior do Mundo. Coroando a temporada praticamente perfeita de 2019, quando o time de Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta e o “Mister” conquistou a tríplice coroa com os títulos do Carioca, do Brasileiro e da Libertadores, o Rubro-Negro enfrentou o Independiente Del Valle em um Maraca lotado para conquistar a Recopa Sul-Americana, um título inédito numa história em que o Maracanã é protagonista. Teve grito de campeão do Rio-São Paulo em 1961, da Copa do Brasil em 2006 e 2013, do Brasileirão em 1980, 1983, 1987 e 1992…

João Felix

O Fluminense não é só o Tricolor das Laranjeiras. É também do Maracanã, por onde passaram ídolos como Castillo, Rivelino, Renato Gaúcho, Fred, Conca e muito mais. E quando se fala em Rivelino, logo vem a memória do elástico aplicado em Alcir e, em seguida, o gol de placa sobre o Vasco, um dos mais memoráveis do estádio e que deu ao Flu o título carioca em 1975.

O Tricolor também teve ídolos estrangeiros que brilharam no palco principal do Rio. Romerito, o paraguaio mais carioca do futebol, foi fundamental na conquista do Brasileirão de 1984 – também sobre o Vasco –, inclusive com o gol do título, o segundo nacional do clube. Em 1970, com a competição sendo chamada de Taça de Prata, o Flu conquistou o primeiro de seus quatro títulos brasileiros ao empatar com o Atlético-MG no último jogo do quadrangular final.

Há mais conquistas no Maraca, e é impossível não lembrar do Gol de Barriga em 1995 diante de um Flamengo repleto de craques, como Romário no auge. Era centenário do Rubro-Negro, mas, no fim do jogo, Renato Gaúcho pôs água no chope do arquirrival, que estava com a mão na taça do Carioca daquele ano, numa emocionante vitória por 3 a 2.

Ídolos modernos, como Conca e Fred, também viveram suas glórias no Maraca. Eles tiveram momentos de alegria, como nos dois títulos brasileiros em 2010 e 2012, apesar de conquistados fora do maracanã, já que o estádio estava em obra para a Copa do Mundo de 2014. Tudo isso, no entanto, não significa que o torcedor não tenha vivenciado momentos de tristeza. E os vice-campeonatos das Copas Libertadores e Sul-Americana em 2008 e 2009, respectivamente – ambos diante de um mesmo algoz, a LDU – são momentos para esquecer no maior estádio do mundo.

Os torcedores do Vasco têm uma relação muito peculiar com o Maracanã. Muitos costumam dizer que São Januário é a sua casa, e o Maraca, seu salão de festas. O fato é que os vascaínos viveram fortes emoções no monumento do futebol. Nos anos 70 e 80, foram muitas as finais contra o Flamengo, seu maior rival. Roberto Dinamite de um lado, Zico do outro. Em 1977, 1982, 1987 e 1988 (com o famoso gol do Cocada), os cruz-maltinos saíram felizes. Em 1974, 1978, 1979, 1981 e 1986, no entanto, foi a vez dos rubro-negros.

Nos torneios nacionais, o Vasco conquistou três de seus quatro Brasileirões no estádio. Em 1974, derrotou o Cruzeiro por 1 a 0. Em 1997, um empate sem gols foi suficiente para garantir o título. Em 2000, uma história curiosa e trágica. O Vasco iria disputar a final do Brasileiro, contra o São Caetano, em São Januário. Entretanto, o Caldeirão vascaíno estava superlotado, e muitos torcedores se feriram quando o alambrado cedeu. A decisão passou para o Maracanã e foi disputada somente em janeiro de 2001.

Por ter sido criticado pela Rede Globo, Eurico Miranda teve a ideia de colocar a logo do SBT na camisa cruz-maltina, obrigando a Globo a exibir o símbolo durante toda a final. O placar final foi 3 a 1 para o time carioca. Além disso, o Vasco começou a levar alguns de seus grandes jogos para São Januário no fim dos anos 90. Foi o caso da decisão da Copa Libertadores de 1998, que teve seu primeiro jogo disputado na Colina.

Mas nem tudo são flores na relação com o maior estádio do Brasil. Os vascaínos certamente lembram da final do Brasileiro de 1984, perdida para o Fluminense, outro grande rival. O clube também viveu maus momentos mesmo durante seus melhores anos. Entre 1999 e 2001, amargou três vezes consecutivas o vice-campeonato do Carioca para o Flamengo. Em 2000, perdeu nos pênaltis a final do Mundial de Clubes da Fifa para o Corinthians. Como toda relação, foram memórias boas e ruins. Mas todas dignas do maior palco do futebol brasileiro.

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